Ilha – Virgilio Piñera

 

Virgilio Piñera (Cárdenas, 1912 - Havana, 1979) escreveu poesias, contos, romances e peças de teatro. Foi muito importante para a literatura cubana, no entanto, em 1971, o governo e as instituições culturais começam a deixá-lo no ostracismo; grande parte disso ocorre por uma radical diferença ideológica e por nunca haver escondido sua homossexualidade.

Ilha

Mesmo que esteja a ponto de renascer,
não proclamarei aos quatro ventos
nem me sentirei o escolhido:
apenas me alcançou a sorte,
e eu a aceito porque não está em minhas mãos
negar, e seria de certa forma uma descortesia
que um homem distinto jamais faria.
Foi anunciado que amanhã,
às sete horas e seis minutos da tarde,
me tornarei uma ilha,
ilha como costumam ser as ilhas.
Minhas pernas irão fazer terra e mar,
e pouco a pouco, como em um andante chopiniano,
começarão a sair árvores em meus braços,
rosas em meus olhos e areia em meu peito.
Em minha boca as palavras morrerão
para que o vento, ao bel prazer, possa ulular.
Depois, estendido como costumam estar as ilhas,
olharei fixamente ao horizonte,
verei sair o Sol, a Lua,
e já distante da inquietude,
direi bem baixinho:
Então era verdade?

 

Fonte Isla

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