Os relógios – Ana María Matute

 

Um conto breve de Ana Maria Matute (Espanha, 1925-2014). Escritora aclamada internacionalmente e membro da Real Academia Espanhola. Foi a terceira mulher a receber o Prêmio Miguel de Cervantes; é considerada uma das maiores novelistas do período posterior à Guerra Civil Espanhola.

Os relógios

Ana María Matute
Tradução: Débora Andreza Zacharias

Tenho vergonha de confessar que até pouco tempo não compreendia o relógio. Não estou me referindo a sua engrenagem interna – nem rádio, nem telefone, nem discos de gramofone eu compreendo: para mim, são pura magia, por mais que me expliquem inúmeras vezes –, mas sim ao número que surge da posição de seus ponteiros. Os ponteiros foram, para mim, um dos maiores e mais fascinantes mistérios e me atrevo a dizer que muitas vezes ainda o são. Se me perguntam, de repente, que horas são e preciso olhar para o relógio rapidamente, acredito que responderei certo umas poucas vezes. Mesmo assim, se quero alguma coisa, é um relógio. Nunca tive um. Quando era menina, nunca pedi porque sempre considerei algo fora do meu alcance, algo além da minha compreensão e da minha capacidade. Eu gostava deles, isso sim. Lembro-me de um relógio alto, com carrilhão, que dava as horas lentamente, precedidas por uma melodia popular:
Lá vão os pastores à Extremadura…
Lá fica a serra fria e escura…
Também gostava de um relógio de sol pintado na fachada de uma igreja, no campo. Esse relógio parecia tão cabalístico e estranho que, às vezes, deitada sob os choupos, perto do rio, eu passava horas olhando como a sombra da barrinha de ferro mostrava a passagem do tempo. Isso me angustiava e me levava, de uma só vez, a uma infinita preguiça. Como é inquietante e atraente o tic-tac soando na escuridão e no silêncio, se acordo à meia-noite. É misterioso e enervante. Durante uma doença, se ela for longa e precisarmos permanecer deitados, a companhia de um relógio é uma das coisas imprescindíveis e ao mesmo tempo irritantes. Eu gosto dos relógios, eles me fascinam, mas acho que os odeio. Às vezes, a sombra dos móveis sobre a parede se transforma em um relógio enorme, que indica o movimento inevitável. Por acaso, não somos nós mesmos um relógio implacável, vencendo o nosso tempo cantado?
Desejo ter um relógio. Muitas vezes pensei que necessitasse de um. Não sei se comprarei algum dia. Eu preciso de verdade? Por acaso, poderei entendê-lo?

Fonte
Los relojes

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