Simbiose – Rodolfo Walsh

 

"...desde o início de sua obra, Walsh se interessou pelo gênero policial, que é o modelo da leitura pragmática e extrema, que busca realocar o contexto real para decifrar o enigma." (Ricardo Piglia)

A seguir, a tradução do conto "Simbiose", de Rodolfo Walsh.

A análise de Ricardo Piglia sobre os contos de Walsh pode ser lida aqui:
Prólogo - Parte 1
Prólogo - Parte 2


Simbiose

Rodolfo Walsh
Tradução: Débora Zacharias

“O país é grande — disse o comissário Laurenzi. Você vê campos cultivados, desertos, cidades, fábricas, gente. Mas o coração secreto das pessoas, não se conhece nunca. E isso é assombroso, porque sou um policial. Ninguém está em melhor posição para ver os extremos da miséria e da loucura. O fato é que somos seres humanos. Depois de um tempo nos cansamos, deixamos que as coisas caiam sobre nós. Sempre as mesmas elipses concêntricas, as mesmas paixões, os mesmos vícios. Com três ou quatro palavras explicamos tudo: um crime, uma infração ou um suicídio. Veja, queremos que nos deixem tranquilos. Pobre do senhor se me trouxer um problema que não se possa resolver em termos simples: dinheiro, ódio, medo! Eu não posso tolerar, por exemplo, que se saia matando alguém sem um motivo razoável e concreto.”
O comissário, claramente, falava no presente histórico. Faz oito anos que está aposentado.
— Obrigado. — disse, sem objeções. Levarei isso em conta.
— Bom, é o que eu penso. Mas, cedo ou tarde, um homem que se move pelo mundo farejando coisas obscuras assiste ao nascimento de um monstro. Preste atenção; não digo uma coisa, um ser material. Pode ser uma ideia, um sentimento, um determinado ato que seja por si só aberrante. Pode ser tudo isso ao mesmo tempo.
Fez uma pausa e aproveitou para aumentar a pressão barométrica com a fumaça deletéria de seu escuro cigarro. Estávamos no café de costume, na mesa de sempre.
— Certas atmosferas — concluiu, espiando com os olhos encobertos o efeito que produziam suas palavras — geram monstros.
Sorri. O comissário esta noite mostrava certa propensão ao exagero.
— Falo sério — insistiu. Já contei que eu era conhecido como “barata tonta” por todas as delegacias do país?
— Não.
— Não — repetiu. História muito longa. Mas, acredite.
— Uma vez, — disse o comissário Laurenzi — fui parar em um povoado de Santiago del Estero, a uns oitenta quilômetros da capital. Um povoado sujo, com uma única rua que tem a invariável direção do vento e onde nunca para de cair pó. Não havia água. Às vezes ficava meio ano sem chover. Quando chegava o trem com os tanques de água, as mulheres e as crianças formavam uma fila maltrapilha e resignada.
“Tudo tinha a cor da terra: as caras, as mãos, as coisas. Podiam fechar as portas e as janelas, mas não podiam impedir a surda invasão do pó. Às duas horas havia uma camada de pó sobre os móveis, os vidros, a roupa: uma película branca, quase imperceptível, mas inexorável e triunfante. Creio que com o tempo isso chegava a adquirir uma projeção anímica.
A população tinha, quase toda, sangue índio. Nos arredores, vegetavam algumas fábricas. Isso quer dizer que durante toda a semana o povoado, necessitado de homens, dormia. Você sabe o que é esse sonho dos povoados do interior.
Aos domingos, o panorama se animava. Chegavam os lenhadores. Para nós, na delegacia, aumentava o trabalho. Havia disputas, desentendimentos. Ou essas intermináveis discussões em que dois homens, sob os efeitos da bebida, debaixo do sol, falam de tudo e não se entendem em nada, mesmo que estejam fingindo admitir pensar o contrário para depois refutar um ao outro. No final apelavam para a faca e em seguida nós chegávamos, a polícia. E depois a curandeira.
Mas na manhã seguinte, tudo estava morto outra vez. Nem uma alma na rua, as portas fechadas e o sol calcinante e eterno. Como um palco vazio, onde periodicamente se apresentava uma mesma cena. Porque essa animação dominical era irreal. A realidade permanente era outra.
Eu estava acostumado a essa imobilidade, essa apatia, essa quase inexistência. É muito estranho, porque eu era um homem de Buenos Aires. No entanto, cheguei a demorar em toda decisão, a reduzir meus movimentos ao mínimo necessário. Me converti na imagem perfeita do comissário tomando mate.
Eu era feliz. Tudo caminhava perfeitamente bem. Até que aconteceu essa coisa brutal que eu vou contar.”
O café dele havia esfriado. Ele o tomou de uma vez só, fazendo uma careta.
— Eu não sei — disse — se você viu um incêndio no campo. Às vezes ardem línguas inteiras de pastagem. Você olha o horizonte e vê colunas inteiras de fumaça. A noite é como um vasto cinturão de fogo, belo e terrível. O que aconteceu foi algo assim, mas em outro plano. Pode rir, mas não encontro palavras para definir, um inconcebível incêndio de almas.
Não — antecipou-se —, não é uma imagem poética. As chamas tiram de seus abrigos todo tipo de bestas ferozes. Deixam atrás de si o cheiro de pestilência. Aqui, também houve algo do tipo.
O comissário pigarreou e acendeu um novo cigarro. Tem o dom natural da pausa dramática. Talvez por isso eu tenha dito a ele para que se dedicasse a escrever contos para revistas. Ele ri e responde que deixa isso para gente como eu. Conhecendo seu mal natural, presumo que seja uma forma dissimulada de me insultar.
— É evidente — prosseguiu — que os primeiros sinais do que acontecia passaram batido. Devo atribuir isso, por um lado, à inércia que me dominava e, por outro, ao fato de seguir sendo um forasteiro para as pessoas do lugar. A verdade é que uma tarde comprovei, com assombro, que o domingo estava chegando ao fim e no povoado não havia ninguém. Durante longos períodos eu não contava os dias. Uma vez por semana acordava com os gritos dos lenhadores e então sabia que era domingo. Mas hoje a rua estava vazia desde o amanhecer. O cabo e os vigias não haviam aparecido depois do meio-dia.
Fui ao armazém e ele estava fechado. Nas casas não havia luz. Tive a impressão de ter ficado absolutamente sozinho em um lugar deserto. Sabe o que eu fiz? Tomei meia garrafa de cana e fui dormir.
O comissário deu um riso áspero.
— Na tarde seguinte, o cabo apareceu e me contou o que estava acontecendo. E foi então que eu ouvi falar pela primeira vez do Iluminado. Acho que os diários de Buenos Aires, mais tarde, chamaram-no assim. Você lembrará como foi divertido o assunto.
“O Mão Santa, disse o cabo, estava a umas duas léguas do povoado, em um rancho na margem do velho leito do rio. E por todos os caminhos e picadas ia chagando gente para vê-lo. Gente doente: entrevados, aleijados, cegos, homens e mulheres cobertos de chagas e pústulas. Gente pobre, maltrapilha, com um amontoa do de cães nas mesmas condições.
Começava a entardecer quando nós aparecemos. Olha, eu nunca vi nada igual. Pensava que coisas assim só aconteciam nesses países esquisitos que vemos nos noticiários.”
— Na Índia — intercalei. A procissão anual às águas do Ganges.
— Se você está dizendo… — concordou. Bom, havia ali umas duas mil pessoas em círculo em uma clareira do bosque. E sabe o que elas faziam? Rezavam. Estavam ajoelhadas e rezavam…
“Essas vozes, se você tivesse escutado… Era como um rugido no deserto que chegava em rajadas potentes, histéricas, com algo indefinivelmente doloroso. Tive trabalho para reconhecer as palavras familiares: ‘Santa Maria, Mãe de Deus, roga por nós, pecadores…’
E esse homem, o Mão Santa, junto ao tronco de uma árvore no centro do círculo, tão imóvel que os ramos da árvore pareciam brotar de seu corpo, e as folhas, de sua cara acesa por um crepúsculo violento.
Quando terminou a reza, houve um grande silêncio. Apenas um choro quase imperceptível se desprendia de algum rincão da multidão.
Então, o Iluminado se aproximou e começou a falar. Era incrível. Digo que era incrível.
Eu não lembro exatamente as palavras que ele dizia e, de qualquer forma, não importa, porque era sua voz, essa melopeia áspera e ao mesmo tempo irresistível, o que hipnotizava a multidão.
Mas havia algo mais. Uma espécie de relação telepática. Não posso descrever de outra forma. De outra forma não se explica o diálogo em que esse velhinho insensato — eu agora o via perfeitamente do meu cavalo: a barbinha rala, amarela de nicotina, os olhos saltados — se dirigia com uma pergunta à multidão, que lhe que respondia na hora, sem vacilar.
Quase todos os redentores, você sabe, usam a mesma linguagem, uma linguagem que aos homens serenos, em circunstâncias normais, nos deixa inteiramente frios ou nos faz rir. Não lhe peço, pois, que repare nas palavras que se cruzaram essa tarde, mas no mecanismo dessa comunicação.”
— Qual é o nosso pão? — perguntava o santarrão.
— A fome! — rugia a multidão.
— E nossa água?
— O medo!
— E nossa esperança?
— O milagre! O milagre!
“Ele lhes prometia um milagre, um grande e difuso milagre que tocaria todas as cabeças vencidas, esses membros chagados. Talvez o velho rio retornasse ao seu antigo leito? Talvez o céu se quebrasse, naquela mesma noite, em uma chuva purificadora e benfeitora? Com os braços abertos traçava riquezas, fecundidades impossíveis.
Olha, se nesse momento eu não tivesse me dado conta do que estava acontecendo, se não tivesse visto o último sol que ardia entre os montes baixos, se não tivesse sentido o frio imperceptível que invadia o ar, creio que teria ficado ali indefinidamente, escutando esse homem esfarrapado e sujo, vidrado nas suas palavras, como o último dos lenhadores. Eu, o homem da cidade, da civilização.
Ainda não falei do fedor que reinava nesse acampamento inconcebível? Nem das moscas e mutucas que flutuavam em nuvens espessas? Seguramente foi isso que me fez decidir. Comecei a abrir caminho com o cavalo através da multidão.”
— Passagem para a autoridade! — gritava o cabo, estalando vigorosamente o chicote.
“E assim chegamos diante do profeta. Acredite, quando não falava, era um homenzinho insignificante. Ficou me olhando de viés, com os olhos saltados e astutos, as mãos cruzadas no peito.
Eu disse… O que eu poderia dizer? Olha, amigo, saia, é o que convém. Não alvoroce essa pobre gente. Vão se empestear com tanta aglomeração.
Você acha que ele ligou? Começou a agitar os braços e a balbuciar incoerências. Por que o perseguiam? Por acaso ele não era enviado para curar os pobres? E outras estupidezes do tipo.
Olhei em volta e só vi rostos ameaçadores, mãos escuras apoiadas nos cabos dos machados. De certo modo, esses pobres diabos eram minha gente, eu estava acostumado a lidar com eles e a compreendê-los. Agora, pareciam desconhecidos. Estou certo de que teriam me feito em pedaços se tentasse algo contra esse indivíduo. Até o cabo, que sempre havia mostrado uma fidelidade de cão, começava a me olhar com desconfiança e reprovação. Uma voz gritou para que eu fosse embora. Logo, outras e outras; muitas. Um entulho se despedaçou contra o pescoço do meu cavalo.
Aconteceu algo pior, algo que não consigo explicar. Eu acreditava, e sigo acreditando, que aquele sujeito era em simples farsante, que devia colocá-lo em uma prisão, pelo menos afastá-lo. Mas, por um momento, um incrível momento, senti essa vergonha, esse sentimento de culpa que salta naquele que persegue um inocente.
Já era noite quando atravessei o acampamento. Fogueiras brilhavam. E a voz do santarrão repetia um lúgubre refrão:
— Meu sangue é a cura de todos os males. Ou algo assim.
Quando cheguei ao povoado, enviei um telegrama pedindo tropas do exército. Que outra coisa poderia fazer? A qualquer momento estouraria uma peste que levaria à tumba metade daqueles infelizes…”
Fez uma longa pausa, como se pensasse em deixar a história sem conclusão.
— Bom — insisti. O que aconteceu com o Mão Santa?
— Foi morto — disse o comissário Laurenzi. Foi morto naquela mesma noite.
Pediu uma grapa dupla e tomou cerimoniosamente antes de prosseguir a narração.
— Entre a primeira e a segunda vez que estive no acampamento — disse — passaram-se doze horas. E naquelas doze horas aconteceram algumas coisas estranhas. A morte desse pobre diabo, sem dúvida, o nascimento do monstro, as pegadas que ele deixou no barro e…
— Um momento! — gritei. Comissário, o senhor está brincando. Olha, primeiro o senhor banca o Lúcio V. Mansilla, ou se preferir, o Esteban Echeverría, e pinta um deserto incomensurável, aberto, etcétera, onde nunca termina de pousar o pó. Depois quer encarnar Mary Shelley. E agora fica falando de pegadas no barro…
— Choveu aquela noite — murmurou discretamente. O mais estranho de tudo. Em seis meses, não havia caído nenhuma gota. Mas naquela noite a chuva foi brutal. Até a baixada trazia água, como se o rio retornasse ao seu antigo leito.
— Não — eu disse. Não, não pode ser.
Ele ficou me olhando, achando divertido, enquanto eu mexia obstinadamente a cabeça.
— O que não pode ser?
— Que o Iluminado fosse autêntico. Que houvesse ocorrido um milagre. Que o senhor pretenda apresentar uma nova religião oficial, em evidente preconceito com Mãe Maria e Pancho Sierra. Que ainda tente converter-me. Eu dou minha palavra de honra, nada disso é possível.
— Pense o que quiser — disse suavemente, chamando o garçom e iniciando esse vago gesto de mão que eu sempre completava. Do ponto de vista policial, que era o da realidade sucinta, que era o meu, o morto se chamava Varela, mendigo e vagabundo, com muitas e frequentes entradas na polícia de San Luís, Córdoba e Tucumán, por exercício de curandeirismo.
— Assim estamos melhor — aprovei. Como foi morto?
— Com uma punhalada na carótida. Limpinha, veja. Mais uma incisão que um talho.
— Perfeito. Agora, explique sobre o monstro.
— Você não acredita, não é?
— Fatos, comissário. Fatos.
— Bom. Os fatos são fáceis de enunciar. Parece que logo que começou a chover, Varela foi ao rancho e deitou. Pelo menos foi ali que o encontraram na manhã seguinte, estendido em um cobertor. Ao lado havia um cofre aberto, vazio.
“Eu teria que procurar o criminoso entre centenas de pessoas. Menos mal que tenha chegado uma companhia de soldados e assim pudemos impedir uma debandada. Mas de qualquer forma, ninguém queria falar.
Por isso eu me alegrei tanto quando descobrimos o rastro. Eram pisadas que seguiam a margem da baixada e paravam antes do rancho. Com um pouco de sorte, pensei, seria fácil encontrar o assassino.
O entusiasmo não durou. O cabo, que sabia seguir rastros, disse que nunca havia visto pegadas como aquelas. E mostrou-me que eram muito profundas, muito afundadas na terra.”
— Isso quer dizer que procuramos um gordo — eu lhe disse.
“Não o vi muito convencido. Até parecia assustado, supersticioso. Na verdade, o gordo não apareceu. Quero dizer que não apareceu ninguém capaz de duplicar essas pegadas no mesmo terreno. Para isso, segundo o cabo, era necessário um homem que pesasse entre cento e trinta e cento e cinquenta quilos. E ele estava convencido que não era um homem.
Enquanto isso, o entorno do acampamento começava a se desfazer. Estouravam brigas que os soldados mal podiam dominar. Quando vieram dizer que haviam encontrado um homem com manchas de sangue na camisa, pensei que tudo iria ser solucionado.
Mas não foi assim. Era um entrevado. Tinhas as duas pernas paralisadas, uma triste cara de idiota e não fazia nada mais do que sorrir. Era evidente que não poderia ter caminhado até o rancho e deixado aquelas pegadas. Quanto às manchas de sangue, havia se machucado com uma faca. Ele me mostrou a faca e a ferida, pouco profunda, que havia feito no braço enquanto dormia.
Foi então que apareceu essa velha dizendo que na madrugada havia visto o diabo rondar o acampamento. Calcule o senhor a importância que eu daria a uma história assim. Mas até esse momento eu não tinha outra coisa.
Era evidente que a mulher falava sério e que estava assustada. Havia visto o diabo, disse, e sem dúvida o diabo havia levado o santo porque não podia suportar que fizesse milagres. E como ele era? Era alto, assegurou, corcunda, e vocês não vão acreditar: tinha duas cabeças. Bom, ele aparecia sempre na forma que mais lhe conviesse. E se assustou? Não veem que quase não consigo falar… Tremia e fazia o sinal da cruz.
Acredite, eu estava farto dessas coisas.
Por fim, trouxeram um cego, porque havia sido encontrado com muito dinheiro, anéis e relicários de ouro. Provavelmente havia tirado do cofre do morto. Mas ele declarou que estava guardando essas coisas e que não ia dizer quem as havia dado a ele. Eu ameacei prendê-lo, por ocultação.
O cego era muito inteligente. Não moveu um dedo diante das minhas insistências.
— Achador, pode ser — ele disse. Cego e desgraçado também. Mas delator, nunca!
E não foi você que matou o curandeiro?
— Na melhor das hipóteses — respondeu. Mas então, eu teria que explicar como ele teria atravessado todo o acampamento que dormia, com centenas de pessoas deitadas no chão, sem pisar em ninguém. Para alguém que não vê, era impossível.
Nisso veio o tenentinho, que mandava os soldados perguntarem o que íamos fazer com aquela gente. Não podíamos contê-los por mais tempo; nem sequer havia algo para comer.
Disse a ele que mandasse cada um para sua casa, porque o problema já estava resolvido.
Não insultarei sua inteligência – concluiu o comissário Laurenzi, com um sorriso maligno – dizendo qual era a solução, porque você seguramente já adivinhou.”
— Minha inteligência, senhor comissário, prefere ser insultada — eu o informei secamente.
— Vou dar uma ajudazinha — disse o comissário, como em uma audição de perguntas e respostas. O testemunho da mulher foi decisivo. O culpado era esse mostro de duas cabeças.
— O diabo? — perguntei com profundo sarcasmo.
— Se preferir, ainda que em sentido figurado — respondeu com perfeita serenidade. Veja, é muito simples. Uma cabeça era a do entrevado. A outra, do cego que o levava nas costas. Nenhum dos dois poderia ter chegado com seus próprios meios até o rancho de Varela. Mas os dois juntos…
— Compreendo — interrompi. É muito simples. O cego utilizou as pernas e o entrevado, os olhos e as mãos. Mas sua técnica narrativa é deplorável — acrescentei, buscando um ilusório revide. Você se utiliza do grotesco literário para aludir a um crime vulgar, com o mais trilhado dos motivos: o roubo.
— Isso é o que você acha — disse enquanto saíamos para a rua. Porque você se atém às interpretações superficiais. Eu lhe falei de um monstro e você acha que eu me referia exclusivamente a essa estranha simbiose entre o cego e o paralítico. Então, eu perdi tempo quando deixei claro, no começo, que o monstruoso pode ser muito bem uma ideia.
“As duas cabeças elaboraram ideias muito diferentes a respeito do suposto Iluminado. A do cego, que era essencialmente a cabeça de um incrédulo, chegou à conclusão de que Varela sendo um farsante, fazia dinheiro com seus sermões e falsos milagres. Portanto, valia a pena matá-lo para pegar o dinheiro. Até aí, está certo. Mas a outra cabeça do monstro bicéfalo era a de um crente absolutamente simplório.
Como tantos curandeiros, Varela usava essas frases espetaculares que constituem o repertório universal da enganação. Lembre-se: no meu sangue está a cura de todos os males. Essa foi a última sentença que eu o ouvi dizer e que se tornou fatídica.
Porque o paralítico, o crente simplório, o simples idiota de sorriso doce a tomou ao pé da letra.”

FIM

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