A girafa que entendeu logo como tudo é relativo

 

Augusto Monterroso (1921-2003) nasceu em Honduras e depois de adulto optou pela nacionalidade guatemalteca, como acabou sendo perseguido pela ditadura da Guatemala, mudou-se para o México. Sua obra está repleta de textos breves que relatam, muitas vezes como fábulas, a natureza humana.

A girafa que entendeu logo

como tudo é relativo

Augusto Monterroso
Tradução: Débora Zacharias

Há muito tempo, em um país distante, vivia uma girafa de estatura mediana, e tão distraída, que saiu da selva uma vez e se perdeu.

Desorientada como sempre, caminhou tresloucadamente de lá para cá e, por mais que se abaixasse para encontrar o caminho, não conseguia nada.

Assim, perambulando, chegou a um desfiladeiro onde acontecia uma grande batalha.

Apesar das muitas baixas em ambos os lados, ninguém estava disposto a ceder um milímetro de terreno.

Os generais bradavam as suas tropas e empunhavam espadas ao mesmo tempo em que a neve era tingida de púrpura pelo o sangue dos feridos.

Entre a fumaça e o barulho dos canhões, via-se tombarem  mortos dos dois exércitos, com tempo apenas de encomendar suas almas ao diabo; entretanto, os sobreviventes continuavam disparando com entusiasmo até que eles mesmos fossem atingidos e caíssem, fazendo um gesto estúpido, mostrando acreditar que sua queda entraria para a História como um ato heroico, pois morriam defendendo sua bandeira; efetivamente, a História torna esses gestos heroicos, tanto a História de um lado quanto a do outro, já que cada um deles conta sua própria História. Assim, Wellington era um herói para os ingleses e Napoleão era um herói para os franceses.

Em meio a isso, a girafa continuou caminhando até chegar a uma parte do desfiladeiro onde estava montado um grande canhão que, naquele exato instante, fez um disparo a exatamente vinte centímetros acima de sua cabeça, mais ou menos.

Ao ver a bala passar tão perto, enquanto seguia com os olhos sua trajetória, a girafa pensou:

“Que bom não ser tão alta, pois se meu pescoço tivesse trinta centímetros a mais, essa bala faria minha cabeça voar; e ainda bem que essa parte do desfiladeiro em que está o canhão não é tão baixa, pois se tivesse trinta centímetros a menos, a bala também teria feito minha cabeça voar. Agora entendo como tudo é relativo.”

Fim.

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