O fundo da alma – Emília Pardo Bazán

Inúmeras mulheres levaram as letras em seu sangue e também o derramaram por elas.
Emília Pardo Bazán foi considerada a melhor novelista espanhola do século XIX, lutou para que as mulheres tivessem direito à educação e para que pudessem ocupar os mesmos cargos que os homens ocupavam, sem renunciar ao feminino. Mais uma das nossas Mulheres de Letras

O fundo da alma

Emília Pardo Bazán (Espanha, 1852-1921)
Tradução: Débora Zacharias

O dia estava radiante. Sobre as margens do rio flutuava desde o amanhecer uma bruma sutil, prateada, recém bebida pelo sol.

E como a luz estava ferindo mais do que deveria, os excursionistas penduraram as toalhas sob os olmos, cujos galhos formaram um toldo com os casacos das senhoras. Ao abrirem as cestas, vieram à luz provisões e almoçaram já bastante tarde, com o apetite alegre e indulgente que despertam o ar livre, o exercício e o bom humor. Consumiram o vinhete nacional, a sidra borbulhante, os licores servidos com café que um remador esquentava no fogareiro.

O passeio havia sido combinado em uma conversa com a contadora, entre exclamações de gozo das moças e dos rapazes, que aproveitavam os jogos de loteria e outras inocentes inclinações do coração, não menos lícitas. Cada casal de pombinhos viu nessa ideia da excelente senhora o agradável porvir de um momento de distração, passeio pelo rio, encantadoras terças entre as árvores floridas de Penamoura. O mais contente era Cesáreo, o filho do primogênito de Sanín, perdidamente apaixonado por Candelita, graciosa, sedutora sobrinha do arcipreste.

Aquilo era amor, ou eles não existiriam no mundo. Não correspondido a princípio, Cesáreo fez mil exageros, ao ponto de ficar seriamente doente: desarranjos nervosos e gástricos, perda total de apetite e de sono, paixão de alma com tendência ao suicídio. Ao final, amoleceu Candelita e o relacionamento se estabeleceu, com a condição de que o rico primogênito deixasse de se opor e consentisse em um casamento a curto prazo, quando Cesáreo se formasse em direito. A moça não tinha um centavo, mas… ainda assim o moço insistia! De forma tão teimosa, tão insensata!

“Ali está, senhores…” Assim falou o primogênito aos seus tertulianos e companheiros de carteado, outros fidalgos velhos que sorriram aprovando e até dando parabéns, muito benevolentes, pois não era “em seus bolsos”… Enfim, não seriam eles quem dariam mamadeira ao que nascesse da união de Cesáreo e Candelita.

A novidade do noivado Cesáreo saboreou sem amarras. Louco estava antes de raiva e louco estava agora de júbilo; dedicava as contadas horas que não passava ao lado de sua noiva a lhe escrever cartas ou a compor versos de um lirismo exaltado. No lugar, não se recordava de caso igual: há ali os namoricos plácidos, serenos, com algo de uma antecipada prosa caseira entre as poesias de idílio. Invejavam Candelita as moças casadouras, encobrindo com chacotas o despeito por não serem amadas assim; e quando perguntavam, por brincadeira, o que teria acontecido se Candelita não lhe correspondesse, respondia Cesáreo de maneira categórica: “morreria”, as garotas mordiam o lábio inferior. O que tinha a tal Candelita a mais que as outras? Veremos…

No passeio a Penamoura esteve mais imprudente, até descortês, o filho do primogênito: seu modo de agir causava murmúrio no grupo. Não tem limites, era muita “exibição”. Aqueles olhos que comiam Candelita; aqueles ouvidos pendurados no eco de sua voz; aqueles gestos de adoração a cada movimento seu…, francamente… não se podia suportar. Enquanto o casalzinho se afastava, avançando castanhal acima com o pretexto de colher amoras, os comentários corriam; apenas o velho capitão reformado, Dom Vidal, que chefiava a excursão, comentou com bondade melosa que essas eram “coisas naturais” e que se retornasse aos seus vinte e cinco, deixaria Cesáreo para trás em performance e ação…

Haviam decidido voltar em uma hora adequada, porque, no outono, sem avisar cai a noite; mas estava tão bonito o prado bordado por espadanas! Quase parecia que acabavam de comer! Que não haviam tido tempo de desfrutar da beleza do campo. Dá pena ir… Além disso, tinham a lua para a navegação. Foi escurecendo impiedosamente e com o poente veio um nevoeiro, suave, leve no início, como pela manhã, mas que não demorou a fechar, denso e pegajoso, impedindo ver objetos a dois passos. Dom Vidal resmungou entre os dentes.

– Más condições para embarcar. Encalharemos – isso quer dizer que não há outro recurso além de regressar à vila.

Ao se aproximarem do barco os excursionistas, não pareciam nem capitão nem remadores. A contadora começou a praguejar: “Deem vinho para esses preguiçosos. Vamos ter trabalho se amanhecermos aqui!” Finalmente, depois de meia hora de gritos e buscas, chegaram, balbuciando apressados, os remadores. Do capitão, não sabiam nada. Concordou-se que era inútil esperar o bêbado: estaria como um cepo em algum buraco da floresta e o remador mais moço, em voz baixa, confessou a Dom Vidal: – Ele tem para a noite toda. Não dá a pé nem à perna.

Vocês sabem navegar? – perguntou Cesáreo, meio alarmado. Com a ajuda de Deus, saber, sabemos – afirmaram humildemente. Conformaram-se os excursionistas e, momentos depois, a embarcação, a golpes de remo, deslizava lentamente pelo rio. Dom Vidal agarrava a madeira do timão e guiava, obedecendo às indicações dos práticos.

Fazia frio, um frio sutil, pegajoso; os jovens começaram a cantar tangos e couplets de zarzuelas. O boticário, para mostrar sua voz empolada, entoou depois o “Spirto”. As senhoras se agasalhavam com seus xales e toalhas, porque a humidade do nevoeiro perfurava os ossos. Cesáreo, estendendo sua capa de chuva, cobria Candelita e, misturando as mãos na escuridão e no espesso tule cinza que os separava, os noivos estavam em perfeito encantamento.

– Ninguém amou como eu nesse mundo – sussurrava o filho do primogênito no ouvido de sua amada. Isto não é carinho, é delírio, é doença. Estou tão feliz! Quisera não chegarmos nunca.

–Voltar, voltar, diabos! – gritou, despertando de seu êxtase, a voz vinosa de um remador. Vamos dar de cara com as rochas! Voltar!

Don Vidal quis obedecer… Já não havia tempo. O barco trepidou, rangeu pavorosamente; os que estavam nele foram lançados uns contra os outros. O rosto de Cesáreo se chocou com o de Candelita. No mesmo instante, começou a afundar o barco. A água entrava borbulhando e em abundância pelo roto e desfundado chão. Ais de agonia, suplicas a santos e virgens se perdiam entre a respiração do abismo que traga sua presa. Era o rio ali, fundo e traidor, de impetuosa corrente. Nenhum excursionista sabia nadar e se espremiam em seus casacos e xales, que os protegiam contra o penetrante nevoeiro, indo a pique direto, como pedra.

Aturdido pelo primeiro gole gelado, Cesáreo se refez, bracejou instintivamente, alcançou a superfície, livrou-se a duras penas da capa de chuva e gritou com suprema angústia:

-Candela! Candelita!

Do abismo negro da água, viu surgir um rosto desfigurado de terror, uns braços rígidos que se agarraram ao seu pescoço.

-Não tenha medo, querida. Eu a salvo!

E começou a nadar lentamente, desesperadamente. Sentia a corrente, rápida e furiosa, que o arrastava, que podia mais.

-Solta…não agarre… deixa só um braço no pescoço… vamos afundar…

A resposta foi a do medo cego, o movimento do animal que se afoga. Candelita apertou com força em dobro, paralisando todo o esforço e pela mente de Cesáreo passou a ideia: “Morreremos juntos”.

O peso de sua amada o afundava, realmente; o braço era mortal. Ele se deixou levar; a água o envolveu. Sua canela bateu em uma pedra pontuda, coberta de algas fluviais. A dor da batida determinou uma reação instintiva; cegamente, sem saber como, afastou aquele corpo aderido ao seu, separou os braços inertes; com um golpe vigoroso, voltou a flutuar e, em poucas braçadas e pernadas de sobre-humana energia, atingiu a margem lamacenta, onde se firmou, agarrando-se nos ramos espessos dos salgueiros… Olhou ao redor; não entendia. Gritou, agitado: “Candelita! Candela!”. A sobrinha do arcipreste não podia responder: ia rio abaixo, em direção ao grande mar do esquecimento.

(1906)

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