RW – Rodolfo Walsh

 

Rodolfo Walsh foi um importante escritor argentino, atravessou ditaduras e criou uma literatura de testemunho e de denúncia que o fez ser perseguido e morto pela ditadura militar argentina, no ano de 1977. Esse texto é uma pequena autobiografia, escrita no momento chave de sua vida, em que a busca pela verdade se torna sua maior missão.

RW

Rodolfo Walsh
Tradução: Débora Andreza Zacharias

Chamam-me Rodolfo Walsh. Quando criança, esse nome não me convencia: pensava que não serviria, por exemplo, para ser presidente da República. Muito depois, descobri que podia pronunciar como dois iambos aliterados, e disso eu gostei.
Nasci em Choele Choel, que quer dizer “coração de madeira”. Fui reprovado por várias mulheres.
Minha vocação despertou cedo: aos oito anos decidi ser aviador. Por uma dessas confusões, quem cumpriu isso foi meu irmão. Suponho que, a partir daí, fiquei sem vocação e tive muitos ofícios. O mais espetacular: limpador de janelas; o mais humilhante: lavador de pratos; o mais burguês: comerciante de antiguidades; o mais secreto: criptógrafo em Cuba.
Meu pai era mordomo de fazenda, um transculturado, a quem os peões mestiços de Rio Negro chamavam Huelche. Tinha o terceiro grau, mas sabia bolear avestruzes e deixar a marca na quadra de bocha. Seu vigor físico, para mim, continua parecendo mitológico. Falava com os cavalos. Um deles o matou, em 1947, e outro foi nossa única herança. Chamava-se “Mar Negro” e marcava dezesseis segundos em trezentos metros: muito cavalo para esses campos. Mas essa era a zona da desgraça, província de Buenos Aires.
Tenho uma irmã monja e duas filhas laicas.
Minha mãe viveu no meio de coisas que não amava: o campo, a pobreza. Em sua implacável resistência, foi mais corajosa, e forte, que meu pai. O maior desgosto que lhe causo é não ter terminado minha docência em letras.
Meus primeiros esforços literários foram satíricos, quadras alusivas a professores e zeladores da sexta série. Quando, aos dezessete anos, deixei o Nacional e entrei em um escritório, a inspiração seguia viva, mas eu havia aperfeiçoado o método: agora armava sigilosos acrósticos.
A ideia mais perturbadora da minha adolescência foi essa piada idiota de Rilke: se você pensa que pode viver sem escrever, não deve escrever. Meu namoro com uma garota que escrevia infinitamente melhor do que eu me reduziu ao silêncio durante cinco anos. Meu primeiro livro foram três novelas curtas no gênero policial, que hoje abomino. Fiz em um mês, sem pensar na literatura, mas sim na diversão e no dinheiro. Fiquei calado durante mais quatro anos porque não me considerava à altura de ninguém. Operação Massacre mudou minha vida.
Escrevendo-a, compreendi que, além das minhas perplexidades íntimas, existia um ameaçador mundo exterior. Fui a Cuba, assisti ao nascimento de uma ordem nova, contraditória, às vezes épica, às vezes fastidiosa. Voltei, completei um novo silêncio de seis anos. Em 1964 decidi que, de todos meus ofícios terrestres, o violento ofício de escritor era o que mais me convinha. Mas não vejo nisso um determinismo místico. Na verdade, fui traído e levado pelo tempo; eu poderia ter sido qualquer coisa, mesmo agora há momentos em que me sinto disponível para qualquer aventura, para começar de novo, como tantas vezes.
Na hipótese de seguir escrevendo, o que mais necessito é uma cota generosa de tempo. Sou lento, levei quinze anos para passar do mero nacionalismo à esquerda; cinco anos para poder armar um conto, sentir a respiração de um texto; sei que falta muito para poder dizer instantaneamente o que quero, em sua forma ótima; penso que a literatura é, entre outras coisas, um caminho árduo através da própria estupidez.

(1965)

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