García Lorca – Poema do cante jondo

 

Em 1922, Federico García Lorca fez a primeira leitura da conferência "El Cante Jondo: Primitivo canto andaluz", em que mostra seu conhecimento e sua adoração por esse canto típico da região da Andaluzia, tão importante em representar a alma de seu povo. Foi o compositor Manuel de Falla quem influenciou Lorca e foi seu mentor no tocante ao conhecimento e documentação sobre a origem desse gênero musical.
Segundo Lorca, esse canto profundo mostra "as mais infinitas gradações da dor e da pena, colocadas a serviço de sua expressão mais pura".
A seguir, está a tradução da primeira parte do Poema del cante jondo: o Poema de la siguiriya gitana, que é composto por sete poemas (Paisagem, O violão, O grito, O silêncio, A passagem da siguiryia, Depois de passar e E depois).
A siguiriya é um dos cantos puros e profundos mais antigos que se tem notícia na história da música flamenca.

 

Poema do Cante Jondo – Poema de la Siguiriya cigana

Federico García Lorca
Tradução: Débora Zacharias

Paisagem
O campo
de oliveiras
se abre e se fecha
como um leque.
Sobre o olival
há um céu profundo
e uma chuva escura
de luzes frias.
Treme junco e penumbra
na margem do rio.
Mistura-se o ar cinza.
As oliveiras
estão carregadas
de gritos.
Uma bandada
de pássaros cativos,
que movem suas longuíssimas
caudas no sombrio.

O violão
Começa o pranto
do violão.
Rompem-se as copas
da madrugada.
Começa o pranto
do violão.
É inútil calar-lo.
É impossível calar-lo.
Chora monótono
como chora a água,
como chora o vento
sobre a neve.
É impossível calar-lo.
Chora por coisas
distantes.
Areia do quente Sul
que pede camélias brancas.
Chora a flecha sem alvo,
a tarde sem manhã
e o primeiro pássaro morto
sobre a rama.
Ah, violão!
Coração malferido
por cinco espadas.

O grito
A elipse de um grito,
vá de monte
em monte.

Desde as oliveiras,
será um arco-íris negro
sobre a noite azul.

Ai!

Como um arco de viola,
o grito o fez vibrar
longas cortas do vento.

Ai!

(A gente das cavernas
mostra seus véus).

O silêncio
Ouve, meu filho, o silêncio.
É um silêncio ondulado,
um silêncio,
de onde resvalam vales e ecos
que inclinam seus rostos
em direção ao sol.

A passagem da Siguiriya
Entre borboletas negras,
vai uma moça morena
junto a uma branca serpente
de névoa.

Terra de luz,
céu de terra.

Vai ligada ao tremor
de um ritmo que nunca chega;
tem o coração de prata
e um punhal à direita.

Aonde vais, siguiriya,
com um ritmo sem cabeça?
Que lua recolherá
tua dor de cal e adelfa?

Terra de luz.
céu de terra.

Depois de passar
Os meninos olham
um ponto distante.

As lamparinas se apagam.
As moças cegas
perguntam à lua;
pelo ar sobem
espirais de pranto.

As montanhas olham
um ponto distante.

E depois
Os labirintos
que cria o tempo
se desvanecem.

(Só resta
o deserto)

O coração
fonte do desejo
se desvanece.

(Só resta
o deserto)

A ilusão da aurora
e os beijos
se desvanecem.

Só resta
o deserto.
Um ondulado
deserto.

 

Fonte:

Conferência El cante jondo
Documentário – El mundo de lo jondo
Hispanoteca
Obras Completas – Federico García Lorca
Wikipedia

 

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