García Lorca – Canção menor

 

Ler poesia é sempre muito bom e traduzi-las, sempre um desafio. "Canção Menor" é a primeira de uma série de traduções que fiz para homenagear o escritor Federico García Lorca. Espero que gostem. Até a próxima.

Canção Menor

Federico García Lorca

Tradução: Débora Zacharias

Têm gotas de orvalho
as asas do rouxinol,
gotas claras da lua
coalhadas por sua ilusão.

Tem o mármore da fonte
o beijo do vertedor,
sonho de estrelas humildes.

As meninas dos jardins
dizem todas adeus
quando passo. Os sinos
também me dizem adeus.
E as árvores se beijam
no crepúsculo. Eu
vou chorando pela rua,
grotesco e sem solução,
com tristeza de Cyrano
e de Quixote,
redentor
de impossíveis infinitos
com o ritmo do relógio.

E vejo secarem os lírios
ao contato da minha voz
manchada de luz sangrenta
e em minha lírica canção
visto gala de palhaço
empoeirado. O amor
belo e lindo se escondeu
sob uma aranha. O sol
como outra aranha me oculta
com suas patas de ouro. Não
conseguirei minha ventura,
pois sou como o mesmo Amor,
cujas flechas são de pranto
e a aljava o coração.

Darei tudo aos outros
e chorarei minha paixão
como um menino abandonado
em um conto que se apagou.

(Libro de Poemas. Granada, dezembro de 1918)

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