Eu não tenho medo

 

Esse é um trecho do livro "Io non ho paura", "Eu não tenho medo", em português, do escritor italiano Niccolò Ammaniti. É um livro que, quando você começar, não conseguirá parar. Espero que esse trecho desperte o seu interesse. Vale a pena ler.

Eu não tenho medo

Niccolò Ammaniti

Tradução: Débora Andreza Zacharias

Quando acordei, mamãe e papai ainda estavam dormindo. Engoli o leite e o pão com marmelada, saí e peguei a bicicleta.
– Aonde você vai?
Maria estava na escada, de pijama, olhando para mim.
– Dar uma volta.
– Aonde.
– Não sei.
– Quero ir com você.
– Não.
– Eu sei aonde você vai… Vai subir a montanha.
– Não. – Não vou. Se o pai ou a mãe perguntarem alguma coisa, diga que eu dei uma saída e já volto.
Um outro dia daqueles.
Às oito da manhã o sol ainda estava baixo, mas já começava a fritar o campo. Percorria o mesmo caminho que fiz na tarde anterior, pedalava sobre a poeira e os insetos sem pensar em mais nada, tentando chegar mais rápido. Peguei a estrada dos campos, que seguia ao lado da colina e levava até o vale. De vez enquanto, do trigo, as pegas levantavam voo com suas caudas brancas e pretas. Elas se perseguiam, brigavam, xingavam umas às outras com aquele canto agudo. Um falcão dava voltas, imóvel, impulsionado pelas correntes de ar quente. Também vi uma lebre marrom, com orelhas compridas, correndo na minha frente. O cansaço aumentava e mesmo forçando os pedais, as rodas escorregavam nas pedras e na terra seca. Quanto mais me aproximava da casa, mais a colina amarela crescia na minha frente e um peso apertava meu peito, me impedindo de respirar.
E se eu chegasse e encontrasse uma bruxa ou um ogro?
Sabia que as bruxas se reuniam à noite nas casas abandonadas, faziam festas e quem participava delas ficava louco e os ogros comiam as crianças.
Preciso ficar atento. Se um ogro me prendesse, também me jogaria em um buraco e me comeria aos pedaços. Primeiro um braço, depois uma perna, até terminar. E ninguém saberia de nada. Os meus pais iriam chorar, desesperados. E todos diriam: “Michele era tão bonzinho, que tristeza”. Viriam os tios e a minha prima Evelina, com seu Giulietta(1) azul. O Teschio não iria chorar, pode acreditar, e nem a Bárbara. Minha irmã e o Salvatore(2), sim.
Eu não quero morrer. Mas eu iria gostar de ir ao meu funeral.
Eu não deveria descer lá sozinho. Será que estou maluco?
Dei a volta com a bicicleta e comecei a voltar para casa. Depois de alguns metros parei.
O que teria feito Tiger Jack no meu lugar?
Ele não retornaria nem se Manitu(3) em pessoa ordenasse.
Tiger Jack.
Aquela era uma pessoa séria. Tiger Jack, o amigo indiano de Tex Willer(4).
E Tiger Jack subiria aquela colina mesmo se houvesse um congresso internacional com todas as bruxas, bandidos e ogros do planeta, porque era um índio navarro, intrépido, invisível e silencioso como um puma. Ele saberia escalar, esperar e atacar os inimigos com um punhal.
Eu sou Tiger, mais que isso, eu sou o filho italiano de Tiger e tenho dito.
Que droga que não tenha um punhal, um arco ou um fuzil Winchester. Escondi a bicicleta como Tiger teria feito com seu cavalo, me enfiei na grama e me arrastei de quatro até não sentir as pernas, duras como um pedaço de lenha, e os braços, dormentes. Então, comecei a caminhar devagar como um faisão, olhando de um lado e do outro.
Quando cheguei ao vale, fiquei algum tempo observando a área, encostado em um tronco. Passei de uma árvore a outra, como uma sombra sioux(5). Atento a qualquer voz ou barulho suspeito. Sentia só o sangue pulsando nos tímpanos.
Agachado atrás de um arbusto, espiei a casa.
Estava silenciosa e tranquila. Nada parecia diferente. As bruxas haviam passado por ali e colocado tudo no lugar.
Eu me enfiei entre as amoras e já estava no quintal.
Escondido atrás de uma placa e um colchão estava o buraco.
Eu não tinha sonhado.
Não conseguia vê-lo direito. Estava escuro, cheio de moscas e subia um fedor de dar náuseas.
Ajoelhei na beirada.
– Você está vivo?
Nada.
– Você está vivo? Me ouve?
Esperei um pouco e joguei uma pedra. Acertei em seu pé. Um pé magro, fino e com os dedos pretos. Um pé que não se moveu um milímetro.
Estava morto. Dali só se levantaria se o próprio Cristo em pessoa ordenasse.
Lembrei da pele do ganso.
Os gatos e os cães mortos nunca haviam me impressionado tanto. O pelo esconde a morte. Mas aquele cadáver, tão branco, com o braço largado, a cara contra a parede, me causava repulsa. Não tinha sangue, nada. Apenas um corpo sem vida, perdido em um buraco.
Não havia mais nada de humano.
Quero ver o rosto. O rosto é a coisa mais importante. Pelo rosto se entende tudo.
Mas ir ali dentro me dava medo. Eu poderia virá-lo com um pedaço de madeira. Precisava de uma madeira bem comprida. Entrei no estábulo e encontrei um pedaço de pau, mas era curto. Voltei. No quintal havia uma portinha fechada à chave. Tentei empurrá-la, mas, mesmo estando danificada, resistia. Acima da porta havia uma pequena janela. Eu subi me escorando na porta e coloquei a cabeça para dentro. Com um pouco mais de peso, ou a bunda da Bárbara, eu não teria passado.
Voltei ao cômodo que havia visto quando atravessava a ponte. Havia pacotes de macarrão. Latas de tomate abertas. Garrafas de cerveja vazias. Sobras de uma fogueira. De jornais. Um colchão. Uma jarra cheia de água. Uma lixeira. Tive a sensação do dia anterior, que ali vivia alguém. Aquele cômodo não estava abandonado como o resto da casa. Debaixo de um cobertor cinza havia uma caixa de papelão. Dentro encontrei uma corda com um gancho de ferro na ponta.
Pensei: assim eu posso descer.
Peguei a corda, joguei-a pela janelinha e saí.
Havia no chão um braço de guindaste enferrujado. Amarrei a corda ao redor dele. Mas fiquei com medo que soltasse e eu acabasse ficando no buraco com o morto. Dei três nós como aqueles que o meu pai dava na lona do caminhão. Puxei com toda força, resistiu. Então, joguei a corda no buraco.
Não tenho medo de nada – sussurrei para ter coragem, mas as pernas não obedeciam e uma voz na minha cabeça gritava para eu não descer.
Os mortos não fazem nada, disse para mim mesmo. Fiz o sinal da cruz e desci.
Dentro estava muito frio.
A pele do morto estava suja, incrustada de lama e merda. Estava nu. Alto como eu, mas mais magro. Estava pele e osso. As costelas estavam salientes. Devia ter mais ou menos a minha idade.
Encostei na sua mão com a ponta dos pés, mas continuava sem vida. Levantei o cobertor que cobria as pernas. Ao redor do tornozelo havia uma corrente fechada com um cadeado. A pele estava esfolada e rosa. Um líquido transparente e denso brotava da carne e escorria sobre os elos enferrujados da corrente unida a uma argola enterrada no chão.
Eu queria ver o rosto. Mas eu não queria encostar naquela cabeça. Me dava asco.
Por fim, meio hesitante, estiquei o braço e peguei com dois dedos uma beirada do cobertor. Estava levantando a coberta do rosto quando o morto dobrou a perna.
Apertei as mãos, meu queixo caiu e o terror agarrou minhas bolas com suas mãos congeladas.
Depois o morto ergueu o peito como se estivesse vivo e, com os olhos fechados, esticou os braços na minha direção.
Meus cabelos arrepiaram, dei um berro, pulei para trás, tropecei num balde e a merda espalhou para todo lado. Caí de costas no chão, gritando.
O morto também começou a gritar.
Fiquei escorregando na merda. Finalmente, em um impulso desesperado, agarrei a corda e saltei daquele buraco como uma pulga enlouquecida.

Niccolò Ammaniti, 2001. Libro: Eu não tenho medo.

1 Giulietta: carro esportivo fabricado pela Alfa Romeo nos anos 60 e 70.
2 Teschio, Bárbara, Salvatore: amigos de Michele.
3 Manitu: divindade protetora dos índios americanos.
4 Tiger Jack, Tex Willer: personagens da história em quadrinhos “Tex”, criada em 1948.
5 Sioux: tribo de nativos americanos.

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