A lebre dourada

 

Este é um conto curto da autora argentina Silvina Ocampo, que nunca teve seu trabalho traduzido para o português, infelizmente. Ainda vou falar mais de suas obras e traduzí-las, mas, por agora, fiquem com esse pequeno e gracioso conto. Ela é mais uma das nossas Mulheres de Letras. Até mais!

A lebre dourada

Silvina Ocampo
Tradução: Débora Zacharias

No coração da tarde, o sol a iluminava como um sacrifício nas lâminas da história sagrada. Nem todas as lebres são iguais, Jacinto, e não era sua pelagem, creia-me, que a distinguia das outras lebres, não eram seus olhos cristalinos nem a forma caprichosa de suas orelhas; era algo que ia muito além daquilo que nós homens chamamos personalidade. As inumeráveis transmigrações que tinha sofrido sua alma lhe ensinaram a tornar invisível o visível nos momentos marcados pela cumplicidade com Deus ou com alguns anjos atrevidos. Durante cinco minutos, ao meio-dia, sempre ficava parada no mesmo lugar do campo; com as orelhas erguidas escutava algo.
O ruído ensurdecedor de uma catarata, que afugenta os pássaros, e o estalar do incêndio de um bosque, que aterroriza as feras mais perigosas, não teriam dilatado tanto seus olhos; o desejoso rumor do mundo que recordava, povoado de animais pré-históricos, de templos que pareciam árvores ressecadas, de guerras cujas metas foram alcançadas por seus guerreiros quando elas já eram outras, voltavam mais caprichosos e mais sagazes. Um dia estava parada, como de costume, à hora em que o sol está a pique sobre as árvores, sem permitir que elas deem sombra, e ouviu latidos, não de um cão, mas de muitos, que corriam enlouquecidos pelo campo.
De um salto seco, a lebre cruzou o caminho e começou a correr; os cães correram confusamente atrás dela.
– Aonde vamos? – gritava a lebre, de repente, com voz trêmula.
– Até o fim da sua vida! – gritavam os cães, com vozes de cães.
Este não é um conto para crianças, Jacinto; talvez influenciada por Jorge Alberto Orellana, que tem sete anos e sempre me pede contos, cito as palavras dos cães e da lebre, que o atraem. Sabemos que uma lebre pode ser cúmplice de Deus e dos anjos se permanece muda frente a interlocutores mudos.
Os cães não eram maus, mas tinham jurado alcançar a lebre apenas para matá-la. A lebre entrou em um bosque, onde as folhas rangiam com pompa; cruzou uma campina, onde o pasto se desdobrava com suavidade; cruzou um jardim, onde havia quatro estátuas das estações e um pátio coberto de flores, onde algumas pessoas, ao redor de uma mesa, tomavam café. As senhoras largaram as xícaras para ver a corrida desenfreada que a seu modo destruía a toalha de mesa, as laranjas, os cachos de uva, as ameixas, as garrafas de vinho. Em primeiro lugar estava a lebre, rápida como uma flecha; em segundo, o cachorro energético; em terceiro, o dinamarquês negro; em quarto, o tigrado grande; em quinto, o cão pastor; por último, o lebrel. Cinco vezes a matilha, correndo atrás da lebre, cruzou o pátio e pisou nas flores. Na segunda volta, a lebre ocupava o segundo lugar e o cão lebrel sempre em último. Na terceira volta, a lebre estava na terceira posição. A corrida continuou pelo pátio, cruzou-o mais duas vezes, até que a lebre ficou em último lugar. Os cães corriam com a língua para fora e com os olhos meio fechados. Nesse momento, começam a fazer círculos que ficam maiores ou menores a medida que aceleram ou diminuem a marcha. O dinamarquês negro teve tempo de levantar um alfajor, ou algo parecido, que tinha guardado em sua boca até o fim da corrida.
A lebre gritava:
-Não corram tanto, não corram assim. Estamos passeando.
Mas nenhum deles ouvia porque sua voz era como a voz do vento.
Os cães correram tanto que, ao final, caíram exaustos a ponto de morrer, com as línguas para fora como longos trapos vermelhos. A lebre, com sua doçura relampejante, se aproximou dos cães levando no focinho um trevo úmido que colocou sobre a fronte de cada um dos cães. Eles voltaram a si.
– Quem colocou água fria no nosso focinho? – perguntou o cão maior – e por que não nos deu de beber?
– Quem nos acariciou com o bigode? – disse o cão menor. Achei que fossem as moscas.
– Quem lambeu nossas orelhas? – perguntou o cão mais fraco, tremendo.
– Quem salvou a nossa vida? – exclamou a lebre, olhando para todos os lados.
– Há algo diferente – disse o cão tigrado, mordendo minuciosamente uma pata.
– Parece que éramos mais numerosos.
– Será que é porque temos cheiro de lebre? – disse o cão energético, coçando a orelha. Não é a primeira vez.
A lebre estava sentada entre seus inimigos. Tinha assumido uma postura de cão. Por um momento, ela mesma duvidou se era cão ou lebre.
– Quem será esse que nos olha? – perguntou o dinamarquês negro, movendo apenas uma orelha.
– Nenhum de nós – disse o cão energético, bocejando.
– Seja quem for, estou muito cansado para olhar – suspirou o cão tigrado.
De repente, ouviram-se vozes que chamavam:
– Dragão, Sombra, Ajax, Lurón, Senhor, Ajax.
Os cães saíram correndo e a lebre continuou um momento imóvel, sozinha, no meio do campo. Moveu o focinho três ou quatro vezes, como se estivesse farejando um objeto afrodisíaco. Deus ou algo parecido a Deus a chamava e a lebre, talvez revelando sua imortalidade, de um salto, fugiu.

Fim

2 comentários sobre “A lebre dourada

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s