Rinconete e Cortadillo

 

Nessa semana do tradutor, publico uma tradução que fiz de um trecho da obra "Rinconete e Cortadillo", de Miguel de Cervantes.“Rinconete e Cortadillo” faz parte de um conjunto de obras chamadas “Novelas Ejemplares” escritas por Miguel de Cervantes no ano de 1623.  Em seu prólogo Cervantes diz: “Soy el primero que he novelado em lengua castellana”, já que muitas novelas que circulavam na Espanha eram traduções de obras estrangeiras. Talvez esse seja o texto de Cervantes que mais se aproxima da literatura picaresca, faz um diálogo com o gênero cômico, além de apresentar uma tonalidade satírica e dialogar com o epílogo moralizante, o que comprova a utilização do adjetivo exemplar. 

Rinconete e Cortadillo

Miguel de Cervantes Saavedra

Tradução: Débora Zacharias

            Eles pareciam não querer terminar tão cedo a canção que haviam acabado de começar, até que alguém bateu à porta freneticamente; Monipódio foi ver quem era. O sentinela disse que o delegado havia aparecido no final da rua e que em sua frente estavam Tordilo e Cernícalo, aqueles dois ignorantes. Quando os de dentro ouviram a notícia, foi um alvoroço: Cariharta e Escalanta calçaram seus chinelos ao contrário, Gananciosa largou a vassoura e Monipódio as castanholas; a música parou completamente, Chiqiuznaque ficou mudo, Repolido estava espantado e Maniferro ficou paralisado. Todos desapareceram, cada um por um lado, subindo no sótão e no telhado para conseguir escapar para outros edifícios e alcançar outra rua se fosse preciso. Nunca um disparo repentino de arma de fogo, nem um trovão daqueles que causam uma revoada de pombas causou tanto alvoroço e poderia espantar tanto aquela boa gente como a notícia de que o delegado estava vindo pela rua.  Os novatos Rinconete e Cortadillo não sabiam o que fazer; ficaram parados, esperando para ver que fim levaria aquela confusão, que, de verdade, não parou até que o sentinela veio com a notícia que o delegado havia passado reto, sem demonstrar que suspeitasse de qualquer coisa.

            Enquanto o sentinela dava a notícia a Monipódio, um jovem cavaleiro chegou a porta, vestido com roupas artesanais de crochê. Ele entrou com Monipódio, que logo chamou a Chiquiznaque, Maniferro e Repolido e pediu para que ninguém mais descesse. Como Rinconete e Cortadillo haviam ficado na parte de baixo, puderam ouvir toda conversa entre Monipódio e o cavaleiro recén chegado, que queria saber porque haviam realizado tão mal um serviço que ele havia encomendado. Monipódio disse que não sabia do que ele estava falando, mas que ali estava o encarregado da tarefa e que poderia explicar o ocorrido.

            Assim que desceu Chiquiznaque, Monopólio lhe perguntou se ele havia cumprido a ordem de dar facadas do tamanho de catorze pontos.

            – Que ordem? – respondeu Chiquiznaque . Aquela do mercador da encruzilhada?

            – É essa – disse o cavaleiro.

            – Vou contar o que aconteceu – respondeu Chiquiznaque , ontem a noite fiquei esperando por ele na porta da casa e ele apareceu antes da hora; cheguei perto dele, olhei bem para a cara dele, mas ela era tão pequena que era impossível caber  um corte de catorze pontos, não iria caber. Como me vi impossibilitado de cumprir o prometido e seguir minhas destruições…

            – Instruções você quer dizer, não destruições – disse o cavaleiro.

            – Isso, foi isso que eu quis dizer – respondeu Chiquiznaque. Digo, vendo que naquela estreiteza e pouca quantidade de rosto não caberiam os doze pontos e para que minha ida até lá não fosse à toa, dei a facada num lacaio do mercador, o que podemos dizer que foi uma coisa genial.

            – Mas, eu queria – disse o cavaleiro – que você tivesse dado uma facada para sete pontos no patrão que uma para catorze no criado. Para mim o serviço não foi feito a contento, mas não importa; não vão me fazer falta os trinta ducados que deixei como sinal. Faço reverência a todos.

            E, dizendo isso, pegou o chapéu e deu as costas a todos para ir embora. Monipódio o pegou pela capa estampada que usava e disse:

            – O senhor fique onde está e cumpra sua palavra, pois nós cumprimos a nossa com muita honra. Faltam vinte ducados e o senhor não sai daqui sem pagar ou dar qualquer coisa com o mesmo valor.

            – Mas é isso que o senhor chama de cumprimento de palavra: dar a facada no criado sabendo que teria que dar no patrão?

            – Que grande juiz é o senhor!  – disse Chiquiznaque. Parece que não se lembra daquelas palavras: “Quem bem quer a Romeu, também quer aos seus”.

            – O que essa frase tem a ver com o que acontece aqui? – respondeu o cavaleiro.

            – Mas isso não é o mesmo que dizer: “Quem o mal quer a Romeu, também o quer aos seus”? Assim, se Romeu é o mercador, o senhor quer o seu mal; o lacaio pertence ao mercador, se atingimos “aos seus” atingimos Romeu. A dúvida está encerrada, o trabalho foi completamente executado e não resta outra coisa além de pagar a quantia que falta, sem retrucar.

            – Essas palavras – disse Monipódio – você tirou na minha boca, Chiquiznaque, meu amigo. Assim, o senhor, tão galanteador, não se meta em encrencas com seus contratados e amigos; siga meu conselho e pague logo pelo trabalho.  Se quiser que seja feita uma outra visita ao mercador, saiba que isso pode ser providenciado.

            – Então, que seja – disse o galanteador. Assim pago com vontade e bom grado os dois encontros com ele.

            – Não duvide disso – disse Monipódio. Tenha fé que Chiquiznaque fará uma visita ao patrão e deixará lembranças que parecerão que estiveram lá por toda vida.

            – Por essa segurança e promessa – disse o cavaleiro -, recebam essa corrente como os vinte ducados atrasados e como quarenta ducados que ofereço pelo serviço que ainda vai ser feito. Ela pesa bastante e vocês poderiam até tê-la perdido, mas eu tenho certeza que as catorze lembranças que vocês deixarão serão bem precisas.

            Pegou uma corrente de pequenas voltas de pescoço e deu para Monipódio, que pelo peso e pela cor viu que não era falsa. Monipódio recebeu a corrente com cortesia e gratidão porque foi muito bem criado. A execução da tarefa ficou a cargo de Chiquiznaque que aceitou terminá-la aquela noite. O cavaleiro foi embora muito satisfeito e logo depois Monipódio chamou todos que estavam ausentes ou ainda assustados. Todos desceram e Monipódio ficou no meio deles para ler um livro que já havia tirado de seu bolso. Deu o livro para que Rinconete lesse, já que ele mesmo não sabia ler. Rinconete abriu o livro e viu que na primeira folha dizia:

MEMORANDO DAS FACADAS

QUE DEVEM SER DADAS ESSA SEMANA

            A primeira no mercador da encruzilhada: vale cinquenta escudos. Foram recebidos trinta adiantados. Executor: Chiquiznaque.

            – Não acredito que tenha outra, filho – disse Monopodio. Vá para frente e veja onde diz MEMORANDO DAS SURRAS.

               Rinconete virou a folha e viu que estava escrito:

MEMORANDO DAS SURRAS

               E mais abaixo dizia:

          “No taberneiro da Alfafa, doze socos precisos e dos fortes a um escudo cada um. Já foram pagos oito. Executor: Maniferro.”

         – Bom, essa tarefa já poderia sair da lista – disse Maniferro, porque esta noite já termino com ela.

Fim do fragmento

 

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