O jardim encantado

 Tradução do conto Il Giardino Incantato do escritor italiano Italo Calvino.

Boa leitura.

O jardim encantado

Italo Calvino
Tradução: Débora Zacharias

Giovannino e Serenella caminhavam pela ferrovia. Abaixo havia um mar cheio de escamas azuis, escuras e claras; acima, um céu que acabava de se encher de nuvens brancas. Os trilhos estavam iluminados e tão ardentes que podiam queimar. Era bom caminhar sobre os trilhos e poder fazer várias brincadeiras: ficar equilibrando sobre dormentes, ele de um lado e ela do outro, e andar de mãos dadas ou saltar de um dormente para o outro sem colocar nunca os pés sobre as pedras. Giovannino e Serenella estiveram a caça de caranguejos e agora haviam decidido explorar a ferrovia até o túnel. Era muito bom brincar com Serenella porque ela não era como as outras meninas que sempre tinham medo e começavam a chorar por qualquer coisa. Quando Giovannino dizia: “Vamos lá”, Serenella o seguia sempre, sem discutir.
Tac! Eles estremeceram e ouviram um barulho bem alto. Era o disco de uma troca de linha que havia batido sobre um pedaço de madeira. Parecia que uma cegonha de ferro havia fechado seu bico com toda força. Ficaram parados por um tempo esperando: que pena que não vimos isso! Agora não iria acontecer outra vez.
-Está vindo um trem. – disse Giovannino.
Serenella não saiu do trilho. -De onde?, perguntou. Giovannino olhou em volta, com ar de quem entende alguma coisa. Apontou para o buraco negro do túnel que ficava embaçado e depois limpo com o movimento do vapor invisível que saia das pedras da ferrovia.
-Dali – disse. Parecia que dava para sentir o vapor profundo do túnel e sentir tudo de repente encostando, uma fumaça e um fogo que tremem, com as rodas comendo os trilhos sem piedade.
-Para onde vamos, Giovannino?
Havia muitos agaves cinzas em direção ao mar, que radiavam espinhos impenetráveis. Em direção ao morro, havia uma cerca de ipomeias, muito carregada de folhas e sem flores. Ainda não dava para ouvir o trem: quem sabe a locomotiva tenha, de repente, passado sem barulho e saltado sobre eles. Mas Giovannino já havia encontrado um buraco na cerca viva. “Ali”.
Debaixo da trepadeira havia uma rede metálica velha e estragada.
Em um ponto, circundava a terra como um canto de página. Giovannino já tinha sumido pela metade e deslizava para dentro.
– Me dê sua mão Giovannino!
Reencontraram-se em um canto do jardim, os dois rastejando em um canteiro, com os cabelos cheios de folhas secas e terra. Tudo envolta estava quieto; nem uma folha se movia.
-Vamos, – disse Giovannino e Serenella respondeu:
-Vamos.
Eram grandes e antigos eucaliptos cor da pele e ruazinhas de pedregulhos. Giovannino e Serenella andavam na ponta dos pés pela ruazinha, atentos ao barulho dos pedregulhos. E se o dono chegasse agora?
Era tudo tão lindo: abóbadas estreitas e altíssimas de folhas curvadas de eucaliptos que deixavam ver apenas parte do céu; permanecia aquela ansiedade, aquele jardim que não era deles e no qual poderiam ser descobertos a qualquer momento. Mas não se ouvia barulho algum. De um tufo de medronheiro, de uma copa de árvore, de uma vez só saíram voando vários pardais fazendo muito barulho. Depois voltou o silêncio. Talvez fosse um jardim abandonado?
Mas a sombra das grandes árvores acabava em certo ponto e eles se viram sob o céu aberto, em frente a canteiros de flores, todos bem arrumados com petúnias e corriolas além de caminhos cercados por arbustos bem aparados. E no alto do jardim, uma grande casa com vidros brilhantes e cortinas amarelas e laranjas.
E tudo estava deserto. As duas crianças iam cautelosamente pelo jardim: talvez os vitrais estivessem por abrir e de repente homens e mulheres muito bravos apareceriam no terraço e soltariam enormes cães pelo jardim. Em um canto, encontraram uma carriola.
Giovannino pegou o a carriola e saiu empurrando: havia um rangido a cada giro da roda, como um assobio. Serenella subiu na carriola e eles continuaram quietinhos, Giovannino empurrando a carriola com ela em cima, ao lado das flores e das fontes de água.
-Aquela, – dizia Serenella de tanto em tanto, apontando uma flor. Giovannino apoiava a carriola, colhia a flor e dava para Serenella. Ela já tinha as mais bonitas em um buquê. Mas ao abrir os arbustos para escapar, talvez ela devesse jogá-lo fora.
Assim chegaram a um lugar onde acabavam os pedregulhos e existia uma parte de cimento e ladrilhos. E no meio daquele espaço, se abria um grande retângulo sem flores: uma piscina. Chegaram até a margem da piscina: ela era de azulejos azuis, cheia de uma água clara até a borda.
– Vamos mergulhar? – perguntou Giovannino a Serenella. Claro que seria muito perigoso se ele perguntasse para ela e não dissesse simplesmente: -Agora! Mas a água estava tão limpa e azul que Serenella não teve medo. Ela desceu da carriola e largou o buquê de flores. Já estavam com roupa de nadar: agora estavam caçando caranguejos. Giovannino mergulhou: não do trampolim, porque a batida na água faria muito barulho, mas da borda. Nadou para o fundo com os olhos abertos e não viu nada além do azul e de suas mãos que eram como peixes cor-de-rosa; não era como embaixo da água do mar, cheia de sombras de formas verde-negras.
Uma sombra rosa sobre ele: Serenella! Eles deram as mãos e, um pouco apreensivos, tiraram a cabeça da água e nadaram até o outro lado. Não, não havia ninguém observando. Não era tão bom quanto imaginavam: permanecia sempre aquela amargura e ansiedade de que aquilo tudo não estava esperando por eles, que não poderiam estar ali e que a qualquer momento seriam expulsos.
Saíram da água e logo ali, perto da piscina, encontraram uma mesa de ping-pong.
Giovannino deu um golpe na bola com a raquete. Serenella foi rapidamente para o outro lado da mesa mandar a bola de volta. Jogavam assim, batendo de leve na bola para que ninguém dentro da casa os ouvisse. De repente a batida fez a bola ricochetear alto e Giovannino, tentando pará-la, acabou fazendo com que ela voasse para longe; bateu em um gongo pendurado entre cavaletes, que vibrou sinistra e longamente. As crianças se aconchegaram atrás de um canteiro de ranúnculos. Logo depois chegaram dois empregados de paletó branco, segurando grandes bandejas, deixaram essas bandejas sobre uma mesa redonda debaixo de um guarda-sol listrado de amarelo e laranja e em seguida foram embora.
Giovannino e Serenella se proximaram da mesa. Era chá, leite e pão de ló. Não havia outra coisa a fazer além de se sentarem e se servirem. Encheram duas xícaras e cortaram duas fatias. Mas não conseguiam se sentir bem sentados, ficavam na ponta da cadeira balançando as pernas. E não conseguiam sentir o sabor dos doces e do chá com leite. Cada coisa naquele jardim era assim: bela e impossível de se aproveitar, com aquele desconforto e aquele medo de que aquilo fosse um acaso e que logo alguém iria chamá-los para acertar as contas.
Em silêncio, se aproximaram da casa. Entre os quadradinhos de vidro de uma janela, dentro, havia uma linda sala sem sol, com uma coleção de borboletas na parede. Nesse cômodo estava um jovem pálido. Deveria ser o dono da casa e do jardim, aquele sortudo. Estava sentado em uma cadeira reclinável e folheava um grande livro de figuras. Tinha as mãos magras e brancas e vestia um pijama de gola alta, apesar de ser verão.
Agora, enquanto espiavam pela janela, iam se acalmando as batidas de seus corações. De fato, aquele rapaz rico, sentado folheando aquelas páginas parecia que olhava a sua volta com mais ansiedade e desconforto do que eles. Ele se levantava na ponta dos pés, como se temesse que em algum momento alguém pudesse expulsá-lo, como se sentisse que aquele livro, aquela cadeira reclinável, aquelas borboletas emolduradas na parede e o jardim com jogos, merendas, piscina, os caminhos e a casa tivessem sido concedidos a ele por um enorme erro e ele estivesse impossibilitado de aproveitar e só sentisse o amargor daquele erro, só sentisse culpa.
O rapaz pálido andava pela sala com passos furtivos, acariciava com seus dedos brancos as molduras da vitrine cheia de borboletas e parava para ouvir alguma coisa. Os corações de Giovannino e Serenella recomeçaram a bater ainda mais forte que antes. Era o medo que existisse um encanto sobre aquela casa e aquele jardim, sobre todas aquelas coisas belas e aconchegantes, como se uma injustiça tivesse sido cometida.
As nuvens escureceram o sol. Bem quietinhos, Giovannino e Serenella foram embora dali. Refizeram o caminho pelas ruas, com passos rápidos, mas sem correr. E atravessaram aquela cerca rastejando. Entre os agaves encontraram um caminho que levava até a praia, pequena e cheia de pedras, com montes de algas na beira do mar. Então inventaram uma brincadeira: batalha de algas. Jogaram punhados de alga na cara um do outro até o fim da tarde. O bom era que Serenella não chorava nunca.

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