Conto: O ferroviário

Tradução do conto El guardagujas do escritor mexicano Juan José Arreola

O ferroviário

Juan José Arreola
Tradução: Débora Andreza Zacharias

O forasteiro chegou sem fôlego à estação deserta. Sua grande mala, que ninguém quis carregar, o havia cansado ao extremo. Ele enxugou o rosto com um pano e, com a mão sobre os olhos para desviar o sol que batia em seu rosto, olhou para os trilhos que se perdiam no horizonte. Cansado e pensativo olhou para o relógio: era a hora exata que o trem deveria partir.
Alguém, saído não se sabe de onde, lhe deu um tapinha no ombro, ao virar-se, o forasteiro se deparou com um velho que parecia trabalhar na ferrovia. Levava em sua mão uma lanterna vermelha tão pequena que parecia de brinquedo. Olhou sorrindo para o viajante, que perguntou ao velho ansiosamente:
– Por favor, senhor, o trem já saiu?
– Faz tempo que o senhor está neste país?
– Preciso embarcar imediatamente. Devo estar em T. amanhã mesmo.
– Se vê que o senhor ignora as coisas completamente. O que deve fazer agora mesmo é se hospedar em uma pensão para viajantes – e apontou para um estranho edifício cinzento que mais parecia um presídio.
– Mas eu não quero me hospedar, e sim tomar o trem.
– Alugue um quarto imediatamente, isso é o que resta. Se o senhor conseguir alugá-lo, faça isso por mês, vai ficar mais barato e o senhor terá mais atenção.
– O senhor está louco? Devo chegar a T. amanhã mesmo.
– Sinceramente, eu deveria abandoná-lo a sua própria sorte. Mas… eu lhe darei algumas informações.
– Por favor…
– Como o senhor sabe, este país é famoso por suas ferrovias. Até agora não foi possível organizá-las como se deveria, mas foram feitas grandes coisas no que se refere à publicação de itinerários e à expedição de bilhetes. Os guias ferroviários trazem todas as rotas e conexões entre as populações da nação; se expedem bilhetes até para as menores e mais remotas cidades. Só falta que os comboios cumpram as indicações contidas nos guias e passem efetivamente por todas as estações. Assim esperam os habitantes do país; enquanto isso, eles aceitam as irregularidades do serviço e seu patriotismo impede que façam qualquer manifestação de desagravo.
– Mas, existe um trem que passe por esta cidade?
– Afirmar isso seria cometer um erro. Como o senhor pode perceber, os trilhos existem, ainda que um tanto avariados. Em alguns povoados estão simplesmente indicados no solo por duas linhas. Dadas as condições atuais, nenhum trem tem a obrigação de passar por aqui, mas nada impede que isso possa acontecer. Na minha vida, eu vi muitos trens passarem e conheci alguns viajantes que puderam se aproximar. Se o senhor esperar pacientemente, talvez eu mesmo tenha a honra de ajudá-lo a subir em um belo e confortável vagão.
– Esse trem me levaria a T.?
– Porque o senhor insiste que seja exatamente a T.? Deveria dar-se por satisfeito se pudesse se aproximar. Uma vez no trem a sua vida tomará efetivamente um rumo. O que importa se esse rumo é ou não é o de T.?
– Eu tenho um bilhete para ir a T. Logicamente devo ser conduzido a esse lugar, não é assim?
– Qualquer um diria que o senhor tem razão. Na pensão para viajantes poderá falar com pessoas que já tomaram suas precauções, adquirindo grandes quantidades de bilhetes. Por via de regra, as pessoas prevenidas compram passagens para todos os pontos do país. Existem pessoas que gastaram uma fortuna em bilhetes…
– Eu acreditei que para ir a T. me bastava um bilhete. Veja este bilhete…
– O próximo trecho de ferrovias nacionais vai ser construído com o dinheiro de uma só pessoa que acaba de gastar seu imenso capital em passagens de ida e volta para um trajeto cujos planos, que incluem extensos túneis e pontes, sequer foram aprovados pelos engenheiros da empresa.
– Mas o trem que passa por T. já está em funcionamento?
– Eu não sei. Na verdade, existem muitos trens em toda a nação e os viajantes podem utilizá-los com relativa freqüência, tendo em conta que não se trata de um serviço formal e definitivo. Em outras palavras, ao subir em um trem, ninguém espera ser levado ao lugar que deseja.
– Como é isso?
– Em seu afã de servir aos cidadãos, a empresa deve tomas certas medidas desesperadas. Faz circular trens por lugares intransitáveis. Esses comboios expedicionários às vezes levam anos em seu trajeto e a vida dos viajantes sofre algumas transformações importantes. Os falecimentos não são raros nesses casos, mas a empresa, que já previu tudo, inclui nesses trens um vagão para velório e um vagão cemitério. É motivo de orgulho para os condutores colocar o cadáver de um viajante luxuosamente embalsamado na plataforma da estação que estava identificada em seu bilhete. Algumas vezes, esses trens são forçados a percorrer trajetos onde falta um dos trilhos. Um lado inteiro dos vagões lamentavelmente estremece com os golpes que as rodas dão sobre os dormentes. Os viajantes de primeira classe – essa é outra coisa prevista pela empresa – sentam do lado em que há trilho. Os de segunda classe padecem com os golpes, resignados. Mas existem outros trechos em que faltam os dois trilhos, nesses trechos os viajantes sofrem por igual, até que o trem fique totalmente destruído.
-Santo Deus!
– Veja, a cidade de F. surgiu por causa de um desses acidentes. O trem foi parar em um terreno impraticável. Lixadas pela areia, as rodas desgastaram até os eixos. Os passageiros passaram tanto tempo juntos que, das conversas por obrigação, acabaram surgindo amizades verdadeiras. Algumas dessas amizades logo se transformaram em amor e o resultado foi F.: uma cidade progressista cheia de crianças travessas que brincam com os restos mofados do trem.
– Meu Deus, eu não estou preparado para essas aventuras!
– O senhor precisa ir acalmando seus ânimos, talvez chegue a virar um herói. Acredite que não faltam oportunidades para que os viajantes demonstrem seu valor e sua capacidade de sacrifício. Recentemente, duzentos viajantes anônimos escreveram uma das páginas mais gloriosas dos nossos anais ferroviários. Em uma viagem de avaliação, o maquinista percebeu a tempo uma grave omissão dos construtores da linha. Na rota faltava a ponte que deveria atravessar um abismo. Pois bem, o maquinista, em vez de dar marcha à ré, conversou com os passageiros e teve deles o esforço necessário para seguir adiante. Sob sua enérgica supervisão, o trem foi desmontado peça por peça e levado sobre os ombros ao outro lado do abismo, que ainda reservava a surpresa de conter em seu fundo um rio caudaloso. O resultado da façanha foi tão satisfatório que a empresa desistiu definitivamente da construção da ponte, resignando-se a dar um desconto atrativo nas tarifas dos passageiros que se atrevessem a enfrentar essa tarefa extra.
– Mas eu devo mesmo chegar a T. amanhã!
– Muito bem! Admiro que o senhor não abandone o seu projeto. Vê-se que é um homem de convicções. Hospede-se por enquanto na pensão e tome o primeiro trem que passar, mas faça-o da forma mais rápida possível; um milhão de pessoas estará lá para impedi-lo. Quando chegar um comboio, irritados por terem esperado muito, saem da pensão de forma tumultuada para invadir a estação. Muitas vezes causam acidentes por sua falta de cortesia e de prudência. Ao invés de subir ordenadamente, esmagam-se; acabam não conseguindo alcançar o trem, que sai deixando os viajantes amontoados na plataforma da estação. Eles, esgotados e furiosos, condenam sua própria falta de educação e passam muito tempo se insultando e se golpeando.
– E a polícia não interfere?
– Tentaram organizar um grupo policial em cada estação, mas com a imprevisível chegada dos trens seu serviço seria inútil e muito caro. Além disso, os membros desse grupo logo demonstraram sua ganância, dedicando-se a proteger a saída exclusiva de passageiros endinheirados que, em troca desse serviço, lhes davam tudo que tinham. Então resolveram criar um tipo especial de escola, onde os futuros viajantes recebem lições de cortesia, além de um treinamento adequado. Nessa escola ensinam a maneira correta de se aproximar de um comboio, ainda que este esteja em movimento e à grande velocidade. Também é fornecida uma espécie de armadura para evitar que os passageiros quebrem as costelas uns dos outros.
– Mas, uma vez dentro do trem, já se está livre de outros problemas?
– Relativamente. Só recomendo ao senhor que preste atenção nas estações. Pode ocorrer o caso de acreditar que tenha chegado a T., mas que na verdade tenha sido uma ilusão. Para regular a vida a bordo de vagões tão lotados, a empresa se utiliza de certos expedientes. Existem estações que são pura aparência: foram construídas em plena selva e levam o nome de uma cidade importante. Mas basta um pouco de atenção para descobrir o engano. São como decorações de teatro e as pessoas que estão lá são cheias de pó de serra. Esses bonecos facilmente apresentam a ação das intempéries, mas às vezes são a perfeita imagem da realidade: têm em seu rosto os sinais de um cansaço infinito.
– Por sorte T. não se encontra muito longe daqui.
– Mas no momento carecemos de trens diretos. Entretanto, não se deve excluir a possibilidade de que o senhor chegue amanhã mesmo, como deseja. A organização dos trens, ainda que deficiente, não exclui a possibilidade de uma viagem sem escalas. Veja senhor, existem pessoas que sequer se dão conta do que se passa. Compram um bilhete para ir a T. Vem um trem, sobem e no dia seguinte ouvem que o condutor anuncia: “Chegamos a T.” Sem tomar precaução alguma os viajantes descem e se encontram realmente em T.
– Eu poderia fazer alguma coisa para conseguir isso de maneira mais fácil?
– Claro que o senhor pode. O que não se sabe é se lhe servirá de alguma coisa. Tente de todas as maneiras. Suba no trem com a idéia fixa de que vai chegar a T. Não converse com nenhum passageiro, eles podem desiludir-lo com suas histórias de viajem ou até denunciá-lo às autoridades.
– O que o senhor está dizendo?
– Em virtude do estado atual das coisas, os trens viajam cheios de espiões. Estes espiões, em sua maior parte voluntários, dedicam sua vida a desenvolver o espírito construtivo da empresa. Às vezes alguém não sabe o que está dizendo, fala só por falar. Mas eles conseguem ver um sentido em toda frase, por mais simples que seja. Do comentário mais inocente sabem arrancar uma opinião culpável. Se o senhor chegasse a cometer a menor imprudência, seria apreendido, passaria o resto de sua vida em um vagão cela ou lhe obrigariam a descer em uma estação falsa, perdida na selva. Viaje cheio de fé, consuma a menor quantidade possível de alimentos e não ponha os pés na plataforma antes que veja em T. algum rosto conhecido.
– Mas eu não conheço ninguém em T.
– Nesse caso, redobre as suas precauções. O senhor terá, lhe asseguro, muitas tentações no caminho. Se olhar pelas janelas, está propenso a cair na armadilha de uma miragem. As janelas estão providas de engenhosos dispositivos que criam todo tipo de ilusões. Não é preciso ser fraco para cair nelas. Certos equipamentos operados da locomotiva fazem crer, pelo ruído e movimento, que o trem está andando. Na verdade o trem permanece parado semanas inteiras enquanto os viajantes veem passar paisagens cativantes através dos vidros.
– E qual é o objetivo disso tudo?
– A empresa faz tudo isso com o justo propósito de diminuir a ansiedade dos viajantes e anular qualquer sensação de mudança. Esperam que um dia os viajantes se entreguem ao acaso, nas mãos de uma empresa onipotente e que para eles já não importe aonde vão nem de onde tenham vindo.
– E o senhor já viajou muito de trem?
– Eu, senhor, só sou um ferroviário. Na verdade, sou um ferroviário aposentado e só apareço aqui de vez em quando para recordar os velhos tempos. Não viajei nunca, nem tenho vontade. Mas os viajantes me contam histórias. Sei que os trens criaram muitas cidades além de F., cuja origem já lhe contei. Acontece que às vezes os tripulantes dos trens recebem ordens misteriosas. Eles convidam os passageiros a descer dos vagões com o pretexto de que admirem as belezas de um determinado lugar. Falam de grutas, de cataratas ou de ruínas célebres: “Quinze minutos para admirarem a gruta não sei que”, diz amavelmente o condutor. Uma vez que os viajantes estão a uma certa distância, o trem sai a todo vapor.
– E os viajantes?
– Vagam desconcertados de um lugar para outro durante algum tempo, mas acabam se reunindo e estabelecem uma colônia. Essas paradas abruptas acontecem nos lugares adequados, longe que qualquer civilização e onde existam recursos naturais suficientes. Nesse lugar são abandonados grupos selecionados, com gente jovem e, sobretudo, com muitas mulheres. O senhor não gostaria de passar seus últimos dias em um lugar pitoresco, desconhecido, em companhia de uma mulher?
O velhinho sorridente deu uma piscadela e permaneceu olhando para o viajante, cheio de bondade e de malícia. Nesse momento ouviram um assobio ao longe. O ferroviário deu um salto e começou a fazer sinais ridículos e desordenados com sua lanterna.
– É o trem? – perguntou o forasteiro.
– O ancião começou a correr desembestado pelos trilhos. Quando estava a certa distância virou-se e gritou:
– O senhor tem sorte! Amanhã chegará a sua famosa estação. Como disse que se chamava?
– X! – respondeu o viajante.
Nesse momento o velhinho desapareceu na claridade da manhã. Mas o ponto vermelho da lanterna continuou correndo e saltando entre os trilhos, imprudente ao encontro do trem.
Ao fundo da paisagem, a locomotiva se aproximava como uma barulhenta aparição.

Fim

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