Conto: Casa tomada

Esse é um dos meus contos preferidos do escritor argentino Julio Cortázar.

Casa tomada

Julio Cortázar

Tradução: Débora Andreza Zacharias

Gostávamos da casa porque além de espaçosa e antiga (hoje que as casas antigas sucumbem à mais vantajosa liquidação de seus materiais) guardava as recordações de nossos bisavós, de nosso avô paterno, de nossos pais e de toda nossa infância.

Nós nos habituamos, Irene e eu, a continuar nela sozinhos, o que era uma loucura, já que nessa casa podiam morar oito pessoas sem incômodo algum. Fazíamos a limpeza pela manhã levantando às sete e lá pelas onze eu deixava para Irene os últimos cômodos por conferir e ia para a cozinha. Almoçávamos ao meio-dia, sempre pontuais; já não tinha nada para fazer além de uns pratos sujos. Era agradável almoçar pensando na casa profunda e silenciosa e em como éramos suficientes para mantê-la limpa. Às vezes chegávamos a acreditar que era ela que não nos tinha deixado casar. Irene recusou dois pretendentes sem maior motivo; quanto a mim, Maria Ester morreu antes que chegássemos a nos comprometer. Entramos nos quarenta anos com a ideia não expressa de que o nosso simples e silencioso matrimônio de irmãos era necessário à clausura da genealogia fixada por nossos bisavós em nossa casa. Morreríamos ali algum dia, primos vagabundos e toscos ficariam com a casa e a derrubariam no chão para enriquecer com o terreno e os tijolos; ou melhor, nós mesmos a derrubaríamos por justiça antes que fosse tarde demais.

Irene era uma jovem nascida para não perturbar ninguém. Depois de sua atividade matinal, passava o resto do dia tricotando no sofá de seu quarto. Não sei por que ela tricotava tanto, acho que as mulheres tricotam quando encontram nesse trabalho o grande pretexto para não fazer nada. Irene não era assim, tricotava coisas sempre necessárias, blusas para o inverno, meias para mim, xales e coletes para ela. Às vezes tricotava um colete e logo depois o desmanchava porque algo não lhe agradava; era bonito ver na cestinha um monte de lã encrespada, resistindo a perder sua forma. Aos sábados eu ia ao centro para lhe comprar lã; Irene tinha fé no meu gosto, se contentava com as cores e nunca tive que devolver nenhuma meada. Eu aproveitava essas saídas para dar uma volta pelas livrarias e perguntar, em vão, se havia novidades na literatura francesa. Desde 1939 não chegava nada valioso à Argentina.

Mas é da casa que me interessa falar, da casa e de Irene, porque eu não tenho importância. Eu me pergunto o que teria sido de Irene sem tricotar. Alguém pode reler um livro, mas quando um pulôver está terminado não se pode repeti-lo sem desordem. Um dia encontrei a gaveta de baixo da cômoda de cânfora cheia de lenços brancos, verdes, lilases. Estavam com naftalina, empilhados como em um armarinho; não tive coragem para perguntar a Irene o que pensava fazer com eles. Não precisávamos trabalhar, todos os meses chegava uma quantia do campo e o dinheiro aumentava. Mas Irene somente se entretinha com o tricô, mostrava uma destreza maravilhosa e eu passava horas vendo suas mãos como ouriços prateados, agulhas indo e vindo com uma ou duas cestinhas no chão onde os novelos se agitavam constantemente. Era lindo.

Como não me lembrar da distribuição da casa? A sala de jantar, uma sala com tapeçarias, a biblioteca, três quartos grandes ficavam na parte mais retirada que está voltada a Rodrigues Peña. Somente um corredor com uma porta maciça de carvalho isolava essa parte da ala da frente onde havia um banheiro, a cozinha, nossos quartos e o living central, que se comunicava com os quartos e o corredor. Entrávamos na casa por um saguão azulejado e uma porta do tipo cancela dava para o living. Desse jeito, se uma pessoa entrava pelo saguão, abria a porta cancela e chegava ao living, nos lados havia as portas dos nossos quartos e à frente, o corredor que levava à parte mais afastada; avançando pelo corredor, abria-se a porta de carvalho e do outro lado começava a outra parte da casa, ou se podia virar a esquerda bem antes da porta e seguir por um corredor mais estreito que levava até a cozinha e o banheiro.

Quando a porta estava aberta, podia-se ver que a casa era muito grande; se não, dava a impressão de um apartamento do que são feitos hoje, onde mal se pode mover; Irene e eu vivíamos sempre nessa parte da casa, quase nunca íamos além da porta de carvalho, a não ser para fazer a limpeza, pois é incrível como se junta poeira nos móveis. Buenos Aires é uma cidade limpa, mas isso se deve a seus habitantes e não a outra coisa. Há muita terra pelo ar, basta uma rajada de vento que se nota o pó sobre os mármores das mesas e entre os losangos das capas de macramé; dá trabalho tirar o pó com espanador, ele voa, fica suspenso e se deposita de novo nos móveis e nos pianos.

Vou lembrar sempre com claridade porque foi simples e sem circunstâncias inúteis. Irene estava tricotando em seu quarto, eram oito horas da noite e, de repente, pensei em colocar no fogo a chaleira de mate. Fui pelo corredor até ficar em frente à porta de carvalho encostada e dei a volta no canto que levava até a cozinha quando escutei alguma coisa na sala de jantar ou na biblioteca. O som vinha impreciso e surdo, como uma cadeira caindo sobre uma almofada ou um sussurro afogado de conversação. Também ouvi algo, ao mesmo tempo ou um segundo depois, no fundo do corredor que dava daqueles cômodos até a porta. Eu me atirei contra a parede antes que fosse tarde demais, fechei a porta com um golpe, apoiando o corpo, felizmente a chave estava do nosso lado e também fechei o trinco grande para dar mais segurança.

Fui até a cozinha, esquentei a chaleira e, quando voltei com a bandeja de mate, disse a Irene:

– Tive que fechar a porta do corredor. Tomaram parte do fundo.

Ela deixou cair o tricô e me olhou com seus olhos graves e profundos.

– Tem certeza?

Confirmei.

– Então – disse recolhendo as agulhas – teremos que viver desse lado.

Eu cevava o mate com muito cuidado, mas ela demorou para recomeçar suas atividades. Lembro que tricotava um colete cinza; eu gostava desse colete.

Os primeiros dias foram penosos porque nós dois tínhamos deixado na parte tomada muitas coisas que queríamos. Meus livros de literatura francesa, por exemplo, estavam todos na biblioteca. Irene se lembrou de uma garrafa de antiga de Hesperidina. Com frequência (mas isso aconteceu apenas nos primeiros dias) fechávamos alguma gaveta das cômodas e nos olhávamos com tristeza.

– Não está aqui.

E era uma coisa a mais além de tudo que havíamos perdido do outro lado da casa.

Mas também tivemos vantagens. A limpeza simplificou tanto que, ainda que levantássemos muito tarde, às nove e meia, por exemplo, às onze horas já estávamos de braços cruzados. Irene se acostumou a ir comigo até a cozinha e a me ajudar a preparar o almoço. Pensamos bem e decidimos isto: enquanto eu preparava o almoço, Irene cozinharia pratos para comer frios à noite. Nos alegramos porque era sempre um incômodo ter que abandonar os quartos ao entardecer para cozinhar. Agora bastava a mesa no quarto de Irene e os frios.

Irene estava contente porque havia lhe sobrado mais tempo para tricotar. Eu andava um pouco perdido por causa dos livros, mas, para não afligir minha irmã, comecei a revisar a coleção de selos de papai, e isso me serviu para matar o tempo. Nós nos divertíamos muito, cada um com suas coisas, quase sempre reunidos no quarto de Irene, que era mais cômodo. Às vezes Irene dizia:

– Olha esse ponto que eu inventei. Não é o desenho de um trevo?

Num instante depois era eu que colocava diante de seus olhos um quadradinho de papel para que ela visse o mérito de algum selo de Eupen y Malmédy. Estávamos bem e, pouco a pouco, começávamos a não pensar. É possível viver sem pensar.

(Quando Irene sonhava em voz alta eu acordava em seguida. Nunca pude habituar-me a essa voz de estátua ou papagaio, voz que vem dos sonhos e não da garganta. Irene dizia que meus sonhos consistiam em grandes sacudidas que às vezes faziam cair o cobertor. Havia o living entre nossos quartos, mas à noite se escutava qualquer coisa na casa. Nós nos ouvíamos respirar, tossir; pressentíamos o gesto que conduz ao interruptor da lâmpada, as mutuas e frequentes insônias.

Fora isso, tudo estava calado na casa. Durante o dia eram os barulhos domésticos, a fricção metálica das agulhas de tricô, um rangido ao virar as folhas do álbum filatélico. A porta de carvalho, acho que já disse, era maciça. Na cozinha e no banheiro, que ficavam ao lado da parte tomada, falávamos com a voz mais alta ou Irene cantava canções de ninar. Em uma cozinha há muitos ruídos de louça e vidros para que outros sons possam invadir. Bem poucas vezes permitíamos ali o silêncio, mas quando voltávamos aos quartos e ao living, então a casa ficava calada e à meia luz, até pisávamos devagar para não atrapalhar. Eu acho que era por isso que à noite, quando Irene começava a sonhar em voz alta, eu acordava em seguida.)

É quase repetir o mesmo, exceto as consequências. Sinto sede durante a noite e, antes de nos deitarmos, disse a Irene que ia até a cozinha beber um copo de água. Da porta do quarto (ela tricotava) ouvi um ruído na cozinha; talvez na cozinha ou talvez no banheiro, porque o canto do corredor abafava o som. Minha maneira brusca de parar chamou a atenção de Irene, que veio ao meu lado sem dizer uma palavra. Ficamos escutando os barulhos, notando claramente que eram deste lado da porta de carvalho, na cozinha e no banheiro ou no corredor mesmo, onde começava o canto, quase ao nosso lado.

Sequer nos olhamos. Apertei o braço de Irene e a fiz correr até a porta cancela, sem olharmos para trás. Ouvíamos os barulhos mais fortes, mas sempre surdos, às nossas costas. Fechei a cancela com um golpe e ficamos no saguão, Agora não se ouvia nada.

– Tomaram essa parte – disse Irene. O tricô que carregava nas mãos e as linhas iam até a cancela e se perdiam por baixo dela. Quando viu que os novelos tinham ficado do outro lado, soltou o tricô sem olhar.

-Você teve tempo de trazer alguma coisa? – perguntei inutilmente.

– Não, nada.

Ficamos imóveis. Eu me lembrei dos quinze mil pesos no armário do meu quarto. Agora já era tarde.

Como me sobrava o relógio de pulso, vi que eram onze da noite. Coloquei meus braços ao redor da cintura de Irene (acredito que ela estava chorando) e saímos assim para a rua. Antes de nos afastarmos tive pena, fechei bem a porta e atirei a chave no bueiro. Para evitar que ocorresse a algum pobre diabo roubar e entrar na casa, ainda mais agora, com a casa tomada.

FIM

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